Um amigo me falou disso e me pediu para escrever.
Nas alturas, anoitecendo, nuvens enegrecendo, brancas se tornando cinzas, o sol não ajuda, está fugindo da briga com a noite. A essa hora ele demonstra sua fraqueza? Ao meu lado minha consciência, amiga, fala para eu escrever e eu escrevo, me rendo.
O título vem fácil, maldição de um cafajeste, afinal vive isso, não é amigo?
Acometido pela mesma maldição de antes, a sua consciência trabalha mais racionalmente. O mesmo quadro se pinta, cores mais vivas dessa vez, a tela é maior. O pintor é o mesmo mas a modelo, que modelo! Não precisa ficar nua, não precisa fazer pose, a pose dela é a sua postura diária. Mulher, brasileira, mulher com cara de felina, mulher com cheiro de mulher, o gosto, não sei, mas deve ser o melhor. Ah, minha imaginação voa....não posso, não posso, não posso, nem devo, mas faço! Por isso sou um cafajeste, mas não sou um canalha, tenho moral, aquele não tem!
Porque essa maldição? O ser mais feliz do mundo é o cafajeste. Encontra sempre a sua felicidade em cada giro do ponteiro, mas nunca vive a felicidade que se apresenta. É obrigado a deixar para trás a sua alegria, encontrada por acaso, talvez num show, talvez num bar, som carioca, som sertanejo, som nordestino, som de Pipa, de Búzios, de Ibiza. Por um momento chora, por um momento grita. Faltam-lhe palavras para expressar o que sente, não pode demonstrar a ninguém o que sente, só ao amigo, confidente das mais indecentes putarias, companheiro das mais infames e devassas noites, divisor de garrafas do “melhor amigo engarrafado”, parceiro das garrafas do andarilho.
A maldição do cafajeste, essa maldição não tem cura. O cafajeste tem cura, deixe de ser um! A maldição jamais. O que viveu está escrito na tábua do tempo, está impresso, imprimido no particípio irregular do verbo, tanto faz, está na sua mente, no seu coração, na sua boca, na sua genitália, na dela, na roupa que se foi com o cheiro, no lençol que ficou com o perfume, na conta do cartão que virá daqui a 30 dias lembrar do ele que viveu, se é que ele vai esquecer.
Amigo, amiga, nada mais importa, tudo está mudado. A vida não pára, agora insolente vida, até quando eu não sei. Em poucos a maldição carrega tanta amargura, em poucos a maldição faz tantos estragos. A maldição afeta a ele, a mim, a você! Ela nos afetou, essa maldição desgraçada.
A partida aconteceu, o retorno irá acontecer? Eu acho que vai, quase certeza! O bacalhau, a berinjela, o tomate-seco, eles continuam sendo feitos, vendidos aos montes, mas não tem o mesmo gosto daquele dia. O vinho, vendido aqui, aí, ali, não tem os mesmos taninos, sulfitos, o álcool, não tem o mesmo gosto daquele. A piscina não está tão quente, nem a sua, nem a dele e nem a minha. Tudo igual e tudo diferente.
A maldição do cafajeste se apresenta, sou eu, é você, é ele.
O teu corpo não mudará, tua voz também não, teu coração, não sei. O do cafajeste mudou, tenho certeza. Mas a consciência agiu, ele não agirá como antes! Não espere nada diferente mas alimente sempre isso. Para crescer precisa de alimento, precisa de amor.
A minha vida, a sua vida, a vida dele, todas estão voltando aos trilhos. A maldição se apresentou.
Voltei, ele também, você ficou! Voltamos com a maldição em nossos pés. O seu envolvimento foi mais intenso que o meu. Eu já me curei. Ela nem lembra mais, coração duro, apenas pele, sexo. Ele ainda lembra, talvez até sofra. Você, tenho certeza! Você sofre, ainda chora, lembra, masturba-se na esperança de gozar como antes. Faça isso mesmo, não se acanhe. Você precisa, merece e ninguém, por enquanto, será tão bom quanto vocês foram. Faça sozinha até se recompor e não tente comparar com o que foi. Acho que a maldição do cafajeste também te atingiu. Pensei melhor, tenho certeza que te atingiu! Ele, não tenho dúvidas, comparou e continuará comparando. Depois saberei.
A maldição do cafajeste. Seja bem vinda! Sou eu, você, ele, somos nós!
Axé Linda, que os santos nos protejam!
Om Sai ram